Renegoceia o teu crédito à habitação com este guia
Fazer um crédito habitação e ficar refém das condições iniciais para sempre? Nada disso! Neste artigo descobre como negociar seguros, spread e outras componentes para poupares.
Quando compras a tua casa, estás a tomar uma das decisões mais importantes da tua vida. Até porque é a compra mais cara. Depois de semanas a negociar, chega o dia da escritura.
O banco aprovou, os papéis foram assinados, o contrato ficou fechado e agora resta pagar as prestações todos os meses. Parece que tudo já está feito. Para muita gente, o momento de assinar o crédito à habitação parece o fim da história.
Mas a verdade é que um crédito à habitação não é uma peça de museu.
Com o tempo, as tuas condições financeiras melhoram (esperamos nós!) e o próprio mercado bancário também se altera.
Isso significa que, ao longo do tempo, tens várias oportunidades para renegociar o teu crédito e reduzir a tua prestação ou pagar o crédito mais cedo (pagar mais cedo = menos juros ao longo dos anos).
Assim, se tens o crédito à habitação há mais de dois anos, este artigo é para ti, pois pode ser esta a tua oportunidade de mudar e poupar centenas de euros.
A prestação do teu crédito
Quando falamos de crédito à habitação, falamos da prestação mensal que pagas.
Prestação mensal: valor debitado na conta bancária que corresponde a uma parte do montante em dívida + spread + taxa Euribor em vigor do contrato (normalmente a 6 ou a 12 meses). A tua taxa pode também ser fixa - a mesma taxa em vigor durante todo o contrato; ou taxa mista, quando tens um período temporal curto de taxa fixa, e depois muda para taxa variável.
Se tens a Euribor a 12 meses, quer dizer que, no mês específico, a tua prestação muda e fica a mesma durante os 12 meses seguintes. A variação pode ser negativa (a tua prestação baixa) ou positiva (vais pagar mais).
Primeiros passos para renegociar
O Manuel fez um crédito à habitação há dois anos. Tem taxa mista: durante os primeiros dois anos, tem taxa fixa de 1% e, depois, vai para taxa variável. Como está a chegar esse momento, o Manuel quer perceber se há hipóteses de poupar na sua prestação. Vamos ver algumas opções disponíveis.
1. Seguros associados ao crédito
Os seguros são, muitas vezes, uma das áreas com maior potencial de renegociação. Muitos créditos à habitação têm dois seguros associados: seguro de vida e seguro multirriscos.
No caso do seguro de vida, é importante lembrar que o prémio tende a aumentar com a idade. Se, no início do contrato, tinhas 30 anos e pagavas 15€ por mês, aos 50 anos poderás estar a pagar o dobro ou o triplo. O que parecia barato no início deixa de ser tão competitivo!
Assim, é importante manteres esta prestação debaixo de olho, sem retirar as proteções. Podes comparar com outras seguradoras e perceber se compensa manter o pacote atual ou trocar.
Na altura, o Manuel decidiu ter os seguros “dentro do banco”, para poder ter o crédito aprovado, e sabe que os seguros nas companhias dos bancos têm prémios mais elevados. Vai agora ao mercado para ver se há uma proposta melhor. Mesmo que possa haver uma “penalização” do spread se mudar de companhia de seguros, por vezes a diferença compensa. Esta é uma das mudanças mais simples e práticas de fazer, com impacto imediato para o Manuel.
2. Baixar o spread
Achas que tens de ficar com o mesmo spread durante décadas? Pensa outra vez.
Os bancos têm campanhas para divulgar a redução do spread para conquistar novos clientes. Esta é uma oportunidade para reveres o teu próprio crédito e reduzires o spread.
Com o passar dos anos, podes ter melhorado a tua situação financeira e, por isso, ser um cliente mais atractivo.
Por exemplo, quando pediste o crédito, o teu rendimento anual era de 28.000€; depois aumentaste o salário e agora é de 33.000€. Podes descer de um spread de 1,5% para 1,3%; acredita que faz bastante diferença.
Por isso, fica atento ao que estão a oferecer. Iniciar a conversa não custa.
3. Cartões e produtos associados
Muitos créditos à habitação incluem cartões de crédito, contas de ordem ou outros produtos que, em teoria, ajudam a reduzir o spread ou a melhorar as condições.
Na prática, convém avaliar se estás a usar estes produtos e se te trazem alguma vantagem. Às vezes, estás a pagar anuidades, comissões ou custos acessórios que anulam a vantagem oferecida e todos os meses sai dinheiro sem dares conta.
Pergunta-te: estou a ganhar realmente alguma coisa com este produto, ou estou apenas a cumprir uma exigência comercial do banco? Se não consegues mudar os seguros ou o spread, experimenta negociar nestes benefícios.
4. Prazo e prestação
Outra variável importante é o prazo do crédito - se vais pagar o crédito a 30, 35 ou 40 anos. Ao pagares a tua dívida em menos tempo, como em 30 anos, estás a pagar mais todos os meses.
Se pagares a tua dívida em mais tempo, como 40 anos, a tua prestação mensal diminuiria, mas terias mais 10 anos a pagar juros todos os meses. Isto é, o crédito acaba ficando “mais caro” no final das contas.
Se a tua prioridade é aliviar o orçamento mensal, o banco pode ajudar a rever a estrutura do crédito. Se a tua prioridade é pagar a dívida mais depressa, também podes negociar soluções que te permitam amortizar a dívida de forma mais eficiente.
Esta solução é mais difícil de obter, uma vez que depende dos teus rendimentos e gastos. Há quem tenha folga orçamental e consiga pagar uma prestação maior para pagar todo o crédito mais cedo. O Manuel pensou nesta solução, mas não consegue diminuir o prazo, por agora.
5. Amortizar antecipadamente
Esta solução consiste em quitar a dívida ao banco antecipadamente. Além de pagares a tua prestação mensalmente, fazes um único pagamento que vai amortizar o capital em dívida diretamente. Depois de o fazeres, o banco recalcula a tua prestação com base no novo valor em dívida, que será menor. Assim, a tua prestação baixa automaticamente.
Podes fazer amortização parcial (um valor específico) ou total - em que amortizas todo o valor em dívida, o crédito desaparece e a casa é tua.
O Manuel fez as contas e está a dever 140.000€, com uma prestação de 450€. Se amortizar 20.000€, a dívida desce para 120.000€. Ao recalcular, a prestação do Manuel baixou em mais de 100€, ficando a pagar 350€.
Podes poupar milhares de euros em juros e pagar o crédito mais cedo. Porém, isto implica ter capital e depende da tua estratégia a médio e a longo prazo. Existem também custos associados a esta operação, que devem ser contabilizados.
6. Outras opções
Existem outras formas de negociar o teu contrato.
Nos últimos anos, muitas pessoas com taxa variável, ao verem que a taxa Euribor ia passar de terreno negativo para positivo, decidiram adotar uma taxa mista, em que a prestação ficava fixa por um período curto, e depois voltava à taxa variável. Isto ajudava a navegar o período em que o crédito se tornava mais caro. Depois voltavam à taxa variável e pagavam o que o mercado ditava.
Ao fazer mudanças nas taxas, é importante reconhecer que há limitações. Quem tem taxa fixa durante todo o contrato geralmente não consegue mudar para taxa variável. Por isso, conhece o teu contrato para entender quais componentes podes ou não alterar.
Dicas para começar a negociar
Saber o que podes renegociar é importante. Saber como o fazer é o que realmente faz diferença.
Primeiro passo: reavaliar os seguros
O mercado de seguradoras é extremamente competitivo e podes alterar de seguradora quando quiseres, ao longo da vida. Este é um processo simples, prático e muitas vezes pode ser feito online. Este é um ótimo passo para iniciantes.
Seguro passo: negociar “em casa”
Antes de pensares em mudar tudo, fala com o teu banco atual. Muitas pessoas saltam logo para a ideia de transferir o crédito para outra instituição, mas esquecem-se de que o próprio banco pode oferecer melhores condições.
Isto é especialmente importante se tens um bom historial, sem atrasos, rendimentos estáveis e uma relação bancária de longa data. Fazer uma chamada não custa nada e, pelo menos, já sabes o que contar e quais campanhas estão em vigor.
Negociar com o banco permite-te poupar bastante em papelada e, se fizerem uma proposta que te interesse, o processo é bem mais fácil.
Terceiro passo: procurar outras propostas
Mesmo que o objetivo seja negociar com o banco atual, convém ter outras propostas em cima da mesa. Comparar é sempre uma forma de ganhar poder negocial, pelo menos sabes o que há do outro lado.
Se tens propostas mais competitivas de outros bancos, isso pode ser um argumento importante para pedir melhores condições. E mesmo que não queiras mudar, saber o que o mercado oferece dá-te uma noção mais realista do que estás a pagar. Fica atento e tenta novamente depois de algum tempo.
Quarto passo: contrata alguém para negociar por ti
Nem toda a gente tem tempo, paciência ou conhecimento para analisar um crédito à habitação em detalhe. E está tudo bem.
Aqui entra a possibilidade de recorrer a um intermediário de crédito. Este apoio pode ser útil para comparar propostas e identificar oportunidades de renegociação que talvez não tenhas visto sozinho.
Um intermediário pode ajudar sobretudo quando queres comparar várias instituições, tens dúvidas sobre seguros e produtos obrigatórios, queres transferir o crédito para melhores condições, ou não sabes avaliar se uma proposta realmente compensa.
Dito isto, convém escolher bem quem te ajuda. O objetivo deve ser simplificar a decisão, não empurrar-te para uma solução que beneficie apenas a comissão de terceiros.
O ponto mais importante continua a ser este: o protagonista da negociação és tu. O intermediário pode apoiar, mas a decisão tem de continuar a ser tomada com os teus números e os teus objetivos. Podes sempre dizer “não” a uma proposta.
Conclusão
O crédito à habitação é um contrato formalizado com uma instituição financeira. No entanto, não tens de manter as mesmas condições durante todo o contrato.
Há várias coisas que podes rever: seguros, spread, cartões, comissões, prazo e até a estratégia de amortização. O erro não é ter feito o crédito. O erro é nunca voltar a olhar para ele.
Lembra-te que o crédito é teu, por isso a primeira responsabilidade é tua: estar atento, rever os custos e perceber se aquilo que assinaste há anos continua a fazer sentido hoje.
Trabalho de casa
O Manuel está a arregaçar as mangas e a pensar no que pode fazer para poupar algum dinheiro no seu crédito. Eis o guia do que ele levará ao mercado.
🔢A situação atual
O ponto de partida é o teu presente e os teus números, aponta:
Qual é a tua prestação atual, qual o spread e qual a taxa Euribor;
Qual o valor em dívida atualmente (ex: 130.000€) e quantas prestações faltam (em meses, como 140 prestações);
Quando pagaste de prestação nos últimos dois anos (para comparar flutuações);
Quanto estás a pagar por mês em seguros (por exemplo: 30€ de seguro de vida e 16€ de seguro multirriscos);
Quanto custa manter os produtos associados ao crédito (se tens de pagar comissões de conta, comissões de cartões não usados, etc.);
⁉️Perguntas para refletir
O Manuel já tem os números, agora tem de fazer as perguntas certas:
O meu crédito continua competitivo face ao mercado?
O meu spread é dos mais baixos do mercado?
Estou a pagar por produtos que não me trazem valor real?
O seguro de vida ainda faz sentido face à minha idade e ao meu perfil?
Já falei com o banco para pedir melhores condições?
📈Ir ao mercado
Agora, o Manuel vai ao mercado para perceber o que pode acontecer.
Contacta o banco para saber que proposta existe para baixar o spread;
Negocia remover ou adicionar serviços mais interessantes;
Procura uma proposta numa concorrente para ter poder negocial;
Analisa bem se vale a pena fazer a alteração.
O crédito à habitação não deve ser um contrato esquecido numa gaveta. Deve ser uma decisão viva, revista com regularidade e alinhada com a tua vida financeira real.
Olha para o mercado, mudar dá trabalho, mas a tua carteira vai agradecer.
Disclaimers
Este artigo tem caráter educativo e não constitui aconselhamento financeiro personalizado.







