🥕 Poupar tudo ou viver hoje? O falso dilema financeiro.
“A vida é curta” tornou-se, para muitos, uma justificação financeira. Vamos falar sobre porque viver hoje e cuidar do futuro não têm de ser escolhas opostas.
Olá e bem-vindos a mais um artigo do Amador Financeiro 👋
Entre o extrato bancário e o feed do Instagram, muitos de nós sentem que estão sempre a falhar financeiramente. Ou porque gastamos demais… ou porque nunca parece que poupamos o suficiente.
Durante muito tempo (no tempo dos nossos avós e talvez ainda no dos nossos pais), o discurso dominante das finanças pessoais foi claro: poupar, poupar, poupar. Adiar gratificação (trabalhar é o melhor remédio), cortar despesas e só pensar a longo prazo (nunca se sabe o dia de amanhã).
Hoje, o pêndulo parece ter ido para o outro extremo.
Na sociedade em que vivemos, em que somos constantemente bombardeados por estímulos que entram na nossa vida através dos muitos ecrãs, gastar passou a ser sinónimo de aproveitar a vida. Viajar, experimentar, comprar coisas novas. Resumidamente, dizer “sim” a tudo porque you only live once.
No meio destes dois extremos, há uma realidade pouco falada: muitas pessoas gastam mais do que gostariam, poupam menos do que sabem que deviam e vivem num conflito constante com o dinheiro. Livros como o Die With Zero, de Bill Perkins, trouxeram uma nova perspetiva para esta conversa. A ideia central é simples, mas provocadora: o valor do dinheiro não está em acumulá-lo indefinidamente (nem em gastá-lo sem direção), mas em usá-lo de forma intencional ao longo da vida, enquanto ainda conseguimos extrair valor das experiências.
O problema surge quando esta mensagem é reduzida a um slogan — e não acompanhada de reflexão, contexto e autoconhecimento.
Neste artigo vamos explorar:
Porque o dilema poupar tudo vs viver hoje é enganador
Porque o verdadeiro equilíbrio começa antes do orçamento
Como alinhar decisões financeiras com a vida que queremos viver — hoje e amanhã.
O verdadeiro ponto de partida: autoconhecimento financeiro
Antes de falarmos de percentagens, orçamentos ou investimentos, há uma pergunta mais fundamental:
Estes padrões não surgem do nada. Vêm da nossa história, da forma como crescemos, da instabilidade (ou estabilidade) que vivemos, e até da fase de vida em que estamos.
O problema é que muitos conselhos financeiros ignoram isto por completo. Pressupõem que todos reagimos da mesma forma aos mesmos estímulos — o que raramente é verdade.
Por isso, o primeiro passo para o equilíbrio não é cortar gastos nem aumentar poupança. É ganhar consciência dos nossos hábitos e comportamentos.
👉 Algumas perguntas simples, mas poderosas, que te podes fazer:
Os meus gastos refletem aquilo que digo valorizar?
Para onde está realmente a ir o meu dinheiro?
O que me causa mais ansiedade: gastar ou não poupar?
E se quiseres ir mais além:
Quando gasto mais, o que estou realmente a tentar compensar?
Quando poupo mais, o que estou a tentar controlar?
Se precisas de ajuda nas respostas (o que é 100% normal), rastreia as tuas despesas durante um ou dois meses. Digo-te como freak das finanças pessoais, mas também como pessoa normal, que teve de começar esta jornada por algum lado: saberes para onde vai o teu dinheiro não é obsessão. É informação. E sem informação, nenhuma decisão financeira terá direção.
PS: Podes fazê-lo mesmo num simples Excel, nas notas do telemóvel ou numa app (eu uso uma chamada Spendee).
O problema dos extremos: YOLO sem intenção e poupança sem propósito
Um dos pontos mais interessantes de Die With Zero é a ideia de que certas experiências têm “prazo de validade”. Energia, saúde, disponibilidade mental — tudo isto muda com o tempo. Adiar indefinidamente pode significar perder a oportunidade de viver certas coisas da forma como gostaríamos.
Mas há uma nuance importante: intencionalidade.
Gastar porque “a vida é curta” pode ser uma escolha consciente, mas também pode ser uma forma elegante de adiar responsabilidades e evitar decisões desconfortáveis.
Da mesma forma, poupar porque “é o que se deve fazer” pode ser responsável, ou apenas medo disfarçado de disciplina, sem um objetivo claro por trás.
Curiosamente, ambos os extremos partilham o mesmo problema (apesar de parecerem opostos):
decisões tomadas em piloto automático,
ausência de critérios claros.
E quando não há objetivos definidos, tudo entra em conflito:
qualquer gasto parece irresponsável,
qualquer poupança parece nunca ser suficiente.
Sabes o que temos de fazer depois de tomarmos consciência dos nossos padrões? Keep reading 😊
Objetivos dão contexto - e tiram culpa às decisões
O dinheiro torna-se mais fácil de gerir quando sabemos para quê ele existe.
Definir objetivos financeiros não é limitar a vida. É dar contexto às escolhas.
Objetivos de curto prazo
viagens
experiências
lazer que melhora genuinamente a qualidade de vida
Objetivos de longo prazo
fundo de emergência (3–6 meses)
estabilidade financeira
reforma
O conflito surge porque ambos competem pelo mesmo recurso: o mesmo tempo, o mesmo dinheiro.
A solução não é escolher um e ignorar o outro — é aceitar que ambos são legítimos.
Vou dar-vos um exemplo da minha vida.
Durante muito tempo senti uma enorme pressão para poupar. Como emigrante, existe quase um “dever implícito”: ganhar mais, poupar o máximo possível e regressar a Portugal o mais rapidamente possível — idealmente com uma boa reforma garantida.
Esse pensamento traz consigo um instinto perigoso: colocar a vida em pausa agora para garantir o futuro depois.
O “problema” é que viajar sempre foi algo muito importante para mim — e não é algo que queira abdicar. Viver constantemente neste conflito, entre responsabilidade e prazer, deixou-me em atrito comigo mesma no início da minha carreira no estrangeiro.
A solução não foi gastar mais nem poupar menos.
Foi dar espaço aos dois.
Passei a ter:
uma poupança mensal automática para o futuro — com um valor mínimo definido que procuro respeitar (sabendo que a vida também tem exceções);
um valor definido para experiências e viagens no presente — planeado, consciente e sem culpa.
A partir desse momento, gastar dinheiro em viagens deixou de me fazer sentir irresponsável. E poupar deixou de significar abdicar de viver.
Ambas passaram a ser escolhas conscientes — e amigas — porque cada uma passou a ter direito a uma parte clara dos meus recursos.
Aqui, também Die With Zero oferece uma lente interessante sobre este possível conflito: em vez de maximizar o dinheiro no fim da vida, a proposta é otimizar o uso do dinheiro ao longo dela. Isso implica gastar em experiências que fazem sentido agora — mas também garantir que o “eu do futuro” não fica sem opções.
Estrutura ajuda. Rigidez atrapalha.
Depois da consciência e dos objetivos, entra a estrutura.
Um orçamento pode ser uma excelente ferramenta para criar equilíbrio — desde que não seja tratado como uma verdade absoluta. Modelos como o 50/30/20 (podes saber mais sobre como aplicar este modelo neste artigo d’O Amador Financeiro) são úteis como ponto de partida:
50% Necessidades — despesas essenciais
30% Qualidade de vida — gastos que trazem valor
20% Segurança futura — poupança, investimento, redução de dívida
Mas as percentagens não são o mais importante.
O mais importante é que o sistema seja sustentável.
Para algumas pessoas, gastar 30% em lazer traz tranquilidade. Para outras, gera ansiedade. O equilíbrio financeiro não é simetria, nem uma ciência — é coerência com valores, rendimentos e fase de vida. E por isso, tu é que decides - com base no auto-conhecimento que vais praticando - o orçamento que te deixa dormir à noite.
Hábitos simples que protegem o equilíbrio ao longo do tempo
Mesmo que a gestão financeira fique ao cuidado de cada um, não deixam de haver alguns truques que podemos todos seguir, para equilibrar a nossa vontade de poupar sem deixar de viver. Mais do que planos perfeitos, são os hábitos (ou regras) que fazem a diferença.
Paga-te primeiro: automatiza poupança e investimento (mal recebes o teu salário).
Cria pausas entre o impulso e a ação: para compras não essenciais, dá-te 24 horas. Muitas decisões mudam com tempo e distância emocional.
Agenda revisões financeiras leves: uma vez por mês, sem julgamentos, só para observar padrões e ajustar. Olha para cada gasto e sente: “Isto alinhou-se com a vida que quero viver?”
Protege o teu ‘eu do futuro’ automaticamente: poupança e investimento devem acontecer sem depender de força de vontade (ou em bom português: “sim ou sim 🙂).
Revê e ajusta regularmente: a vida muda e portanto o plano também deve mudar.
Estes hábitos ligam-se diretamente à ideia central de Die With Zero: usar o dinheiro como ferramenta para viver melhor e para servir os teus valores — não como um fim em si mesmo.
Conclusão
Viver hoje não é o problema.
Poupar para o futuro também não.
O verdadeiro problema é tomar decisões financeiras sem critérios — reagindo ao medo, à culpa ou à pressão social, em vez de escolher com intenção. O equilíbrio financeiro não nasce de fórmulas perfeitas nem de slogans como “a vida é curta”. Nasce de clareza: sobre quem somos, o que valorizamos e que tipo de vida queremos construir — agora e no futuro.
Talvez o objetivo não seja morrer com zero.
Talvez seja viver com opções, usando o dinheiro como uma ferramenta para criar segurança, experiências e liberdade ao longo da vida.
E isso começa sempre antes do orçamento.
Trabalho de casa📝: da consciência à ação
Este trabalho de casa segue exatamente a lógica do artigo. Não precisas de fazer tudo de uma vez - a ordem é mais importante do que a velocidade.
1. ✏️ Ganha consciência (antes de mudares qualquer coisa):
Durante 1 semana, 2 semanas ou 1 mês (tu escolhes), rastreia todas as tuas despesas.
Podes usar:
Uma app (eu uso a Spendee, mas tens também a Money Tracker ou a Monarch)
Uma nota no telemóvel (ideal para apontar no momento da despesa - passa para um excel mais tarde, se preferires)
Um excel simples
→ No final do mês (ou do tempo de rastreio), responde por escrito:
Para onde foi realmente o meu dinheiro?
Onde senti mais ansiedade: ao gastar ou ao poupar?
Que gastos refletiram os meus valores?
Que gastos aconteceram em piloto automático?
Não saltes este passo! Sem informação, qualquer decisão é só uma reação.
2. 🧮 Define objetivos que deem contexto às tuas escolhas.
Agora que tens mais clareza sobre os teus padrões, escreve:
1 objetivo de curto prazo (ex: viagem, experiência, algo que melhore a tua vida hoje)
1 objetivo de longo prazo (ex: fundo de emergência, estabilidade, reforma)
→ Depois responde honestamente: “Se estes dois objetivos são legítimos, como posso dar espaço aos dois?”
Não procures a resposta perfeita. Procura uma resposta possível.
3. ✍️ Cria estrutura com hábitos simples
Revê a secção “Hábitos simples que protegem o equilíbrio ao longo do tempo”.
Não precisas de implementar tudo de uma vez. Escolhe um hábito:
aplica
observa
ajusta
Depois passa ao próximo. Mais importante do que acertar à primeira é criares um sistema que consigas manter.
Se quiseres ir the extra mile:
4. 🤓Revisita o nosso artigo focado em orçamentos e explora um à tua escolha.
Mas lembra-te: por muito que estas ferramentas sejam úteis, não há nenhuma solução “one size fits all”.
Acima de tudo, adapta tudo à tua realidade, aos teus valores e à fase de vida em que estás.




