Quanto custa uma casa quentinha? Um guia para várias carteiras
Frio a entrar pela tua casa e tu sem saberes o que fazer? Este artigo é para te ajudar a criar conforto no teu lar, com opções para várias carteiras.
Ah, lar doce lar!
Com este frio e chuva, só se está bem em casa. Estão sete graus, chegas a casa e, afinal, não está tão acolhedor quanto pensavas. Porque dás por ti na sala, com três camadas de roupa, dois cobertores e, ainda assim, a bater o dente.
Infelizmente não és o único.
Portugal tem um clima fantástico, mas os portugueses têm muita dificuldade em aquecer as suas casas1. Mais de 2 milhões de portugueses não têm meios para aquecer a sua casa2 e estão expostos a graves riscos de saúde associados ao frio.
Parece que mais vale ficar lá fora do que estar sentado à frente da televisão!
Este artigo vai ser o teu guia para teres uma casa pronta para o frio: partilhamos contigo soluções, da mais cara à mais barata, para aquecer a tua casa de acordo com as tuas necessidades e a flexibilidade da tua carteira.
Imagina a Catarina.
Tem uma casa pequena e, quando chega janeiro, começa a sua estratégia de aquecer a casa aos bocados: quando chega a casa, liga o aquecedor da sala por meia hora; depois, umas horas antes de deitar, move o aquecedor para o quarto e vai gerindo tudo como se fosse uma maestrina de uma orquestra sinfónica.
Mas dia após dia, a casa continua fria. Se te acontece o mesmo que à Catarina, o teu problema pode não ser aquecimento: pode ser um problema de isolamento!
Estás a gastar dinheiro para aquecer o ar, mas ele foge-te pelas janelas, portas e frinchas, como se tentasses encher um balde com furos. E este problema repete-se no verão: ligas a ventoinha para ficar mais fresco, mas o ar desaparece para o exterior e tudo volta a ficar uma sauna.
Por isso, o primeiro é entender o quão bem isolada está a tua casa.
Isolamento: do super investimento ao mini investimento
Para melhorar o isolamento do teu imóvel, considera algumas opções, com a etiqueta que te faça mais sentido:
Super investimento – janelas eficientes
Trocar as janelas por janelas eficientes (por exemplo, vidro duplo com caixilharia bem isolada) pode custar centenas ou milhares de euros, conforme a quantidade de janelas necessárias e a qualidade escolhida. Apesar de ser um investimento pesado, reduz as perdas de calor em 30–40% e em muitos casos e valoriza o imóvel, além de aumentar o conforto no verão.
Durante alguns anos houve programas do Fundo Ambiental3, que devolviam parte do investimento em janelas eficientes, mas estes apoios não estão sempre ativos. Por isso convém fazeres as contas antes de avançares para a compra.
Custo: para um apartamento com 6 janelas, vamos estimar que cada uma custa 300€ → investimento de 1800€, incluindo mão de obra.
Redução do consumo de energia: entre 25 e 50%. Se a família gasta 1000 €/ano em aquecimento/arrefecimento:
Poupança conservadora (25%): cerca de 250 €/ano.
Poupança otimista (40%): cerca de 400 €/ano
Com este investimento, consegues um retorno entre 5 e 8 anos. Se entretanto venderes a casa, esta pode valer mais. Podes ainda usar a fatura das janelas para reduzir o pagamento de mais-valias na venda do imóvel.
Investimento médio – “Tapar buracos” com fitas e “chouriços”
Se trocar janelas está fora de questão por agora, podes começar por rever caixilhos e portas e aplicar fita adesiva isoladora (fita de calafetagem) nas frinchas por onde entra ar. Podes encontrar estas fitas facilmente em lojas de bricolage. Já os famosos “chouriços” de porta (roletes de tecido que se colocam na base das portas) são baratos, práticos, e duram vários anos. É um desenrasca português que funciona sempre.
Custo: dependendo da quantidade, não deve ir além dos 200€.
Poupança anual estimada: máximo 100€. É um conforto momentâneo, mas com baixa durabilidade no longo prazo. Terás de pensar em substituir.
Investimento leve – Casa fria, corpo quente
Quando o orçamento é apertado, a prioridade passa por aquecer o corpo: mais camadas de roupa, meias grossas, pantufas e até gorro podem reduzir a necessidade de ter o aquecimento ligado. Não é glamoroso, mas é eficaz e, quando combinado a pequenas melhorias de isolamento, dá-te mais conforto. Além disso, podes fazer um plano de poupança para, no futuro, investir numa melhor solução de isolamento.
Poupança anual estimada: se vais andar de casaco e botas pela casa e não ligares nenhum aquecedor, podes poupar centenas de euros a cada ano.
Ligar o aquecimento gastando muitas notas ou poucas notas
Se até tens um bom isolamento e queres aquecer a casa de forma eficaz, há soluções que podes explorar.
Super investimento – Ar condicionado
Um sistema de ar-condicionado (bomba de calor ar‑ar) exige instalação, muitas vezes com passagem de tubos pelas paredes. Ou seja, tens de partir parede. Ainda assim, no longo prazo, é uma das soluções mais eficientes para aquecer e arrefecer, pois pode ser usada todo o ano.
Mesmo que aumente a tua fatura de eletricidade, o equipamento consegue aquecer a divisão mais depressa e com menos desperdício de energia do que muitos aquecedores portáteis. Depende da tipologia da casa, se tens isolamento e quantas horas deixas o aparelho ligado todos os dias. É, de facto, um investimento de longo prazo.
Custo: pode custar entre 1500€ e 2500€.
Redução do consumo de energia: entre 25 e 40%. Se a família gasta 1000 €/ano em aquecedores elétricos:
Poupança conservadora (20%): ~200 €/ano.
Poupança mais agressiva (30–35%): 300–350 €/ano.
Podes também obter o retorno do investimento entre 5 e 8 anos, dependendo da poupança anual.
Investimento médio – termóstato e controlo de temperatura
Usar um termóstato (seja integrado ao sistema, seja uma tomada inteligente ligada a um aquecedor) permite definir uma temperatura-alvo e evitar que a casa aqueça “a mais” do que necessário. Vê isto como um aliado, que te permite deixar os equipamentos apenas algumas horas ligados sem teres de te lembrar. Se está menos horas ligado, consome menos energia. Assim, gastas algum dinheiro a aquecer, mas não estás a gastar mais à toa.
Poupança anual estimada: é como contratares um gerente para indicar aos aparelhos de casa quando devem ligar e desligar. Aponta para dezenas de euros por ano.
Investimento leve – Têxteis que abraçam o calor
Tapetes, cortinados pesados, mantas no sofá e lençóis de flanela na cama ajudam a “segurar” o calor junto ao corpo e a reduzir a sensação de frio nas superfícies. São compras que duram vários anos e permitem reduzir ligeiramente a temperatura do aquecimento sem perder conforto.
Investimento: não deve ir além dos 100€. E não precisas de trocar mantas durante décadas, quando bem mantidas.
Melhorar a fatura da eletricidade
Já tens isolamento e já sabes que vais gastar dinheiro a aquecer a casa. Como podes poupar uns euros por mês na eletricidade? Aponta estas dicas para podes as mãos na massa:
Faz manutenção dos equipamentos
Filtros de ar sujos, resistências cheias de pó ou equipamentos antigos sem revisão consomem mais energia para fazer o mesmo trabalho. Uma manutenção simples e regular (limpar filtros, verificar fugas, substituir aparelhos muito ineficientes) pode reduzir o consumo em 10–15% em alguns casos. Podem só afetar dois euros por mês, mas já é uma ajuda.
Usa tecnologia a teu favor
Tomadas inteligentes e aplicações de controlo remoto permitem ligar e desligar aquecedores, ar condicionado ou esquentadores consoante horários e temperaturas. É um ótimo assistente para que os teus gastos com eletricidade se mantenham dentro do orçamento — a tua cabeça vai agradecer por não ter de pensar nestas coisas.
Aproveita a tarifa bi-horária
Se tiveres tarifa bi-horária, faz o esforço de transferir os equipamentos que mais consomem (máquina de roupa, loiça, termo-acumulador) para o horário mais barato. Assim, manténs grande parte dos teus hábitos, mas pagas menos por kWh: reduzir custos sem perder conforto. Se juntares esta programação com tecnologia, entras em piloto automático sem preocupações.
Rever o fornecedor de eletricidade
Mudar de comercializador ou de plano pode poupar dezenas de euros por ano, sem qualquer investimento em equipamentos. Há simuladores oficiais que permitem comparar ofertas de eletricidade e gás e perceber, em poucos minutos, se estás a pagar mais do que devias. Se reduzires a fatura em 7€ por mês, poupas 84€ por ano.
Dicas super práticas que realmente funcionam
Se queres mesmo melhorar o conforto em tua casa, mas não queres andar a fazer comparações de equipamentos e gastar pouco dinheiro, há alguns truques que podem ajudar-te no inverno. Estes vêm diretamente da sabedoria popular.
O forno como aliado: O forno é um dos equipamentos que mais energia consomem, mas se o vais usar, faz com que trabalhe por ti: cozinha várias refeições ao mesmo tempo. Ao terminar, deixa a porta do forno entreaberta (desde que seja seguro) para que o calor liberado ajude a aquecer a cozinha por algum tempo, em vez de deixá-lo preso lá dentro. É um 2 em 1 que te enche a barriga e aquece os ossos, sem gastar exatamente o mesmo tempo e dinheiro.
Cortinas térmicas e mantas elétricas: cortinas de retenção de calor (mais espessas ou com camada térmica) ajudam a reduzir as perdas de calor pelas janelas; abre-as durante as horas de sol e fecha-as assim que escurece para manter o calor dentro. Já as mantas elétricas, usadas antes de te deitares para aquecer a cama, consomem relativamente pouca energia e podem permitir manter o quarto mais fresco sem perder conforto. Se não queres nada elétrico, existem lençóis de flanela que te podes enrolar para um burrito. É maravilhoso!
Botijas de água quente: são “old school”, mas funcionam. Enches com água quente, colocas na cama alguns minutos antes de dormir e ficas com um ninho quentinho sem gastar eletricidade adicional durante a noite. É uma das soluções mais baratas e, no momento em que os teus pés tocam a botija, é como se fosse magia.
Trabalho de casa: aquecer melhor, gastar menos
Chegaste até aqui e aposto que já sentes o coração mais quentinho, certo?
Porém, as mãos continuam frias; por isso, o teu trabalho de casa é passares para a prática e aplicar uma destas medidas.
(esfrega as mãos primeiro para não estares a ler isto com frio!)
Para que possas tornar a tua casa ainda mais confortável, partilhamos 4 passos simples:
Faz uma “auditoria do frio” em casa
Dá uma volta pela casa num dia frio e identifica onde sentes correntes de ar: janelas, portas, chão, paredes.
Repara mentalmente nas divisões que arrefecem mais depressa após desligar o aquecedor.
Elabora a tua estratégia
Em que divisões passas mais tempo?
Quais as divisões que precisam de maior isolamento?
Quantos aquecedores tens, quantos usas, quantos estão bem mantidos?
Vais atacar as três frentes: isolamento, aquecimento, fatura da eletricidade:
Isolamento: escolhe uma das opções. Se tens dinheiro para trocar as janelas, pode ser algo que te dê imediatamente um impacto positivo.
Aquecimento: Define uma temperatura-alvo (por exemplo, 19–21 graus) e usa um termóstato ou tomada inteligente sempre que possível
Factura da eletricidade: revê os teus gastos, procura simulações e muda para um operador que te permita poupar alguns euros ao final do mês.
Escolher uma solução “quase grátis” para hoje
Hoje, mesmo: mais uma camada de roupa, uma manta no sofá ou uma botija de água quente na cama antes de dormir.
Se fizeres pelo menos um “super investimento” ao longo dos próximos anos e fores somando as melhorias baratas e inteligentes, cada inverno vai ser um bocadinho menos gelado para ti — e para a tua conta bancária.





